sábado, setembro 20, 2003

RITUAL

DIRECÇÃO DE CENA

Amanhece. Junto à janela, um homem de boxers fuma um cigarro que apaga num cinzeiro repleto de beatas. Formas anelares vermelhas enriquecem vários dos filtros castanhos, flores numa floresta de cinza. Uma aliança dourada está encurralada num dedo que engordou e torna inútil qualquer tentativa de a retirar. Lisboa parece uma cidade diferente sobre a primeira luz do dia. O homem consegue ver a ponte sobre o Tejo no quarto andar de um apartamento desconhecido. Suspeita estar em Belém: o ângulo de visão sobre a estrutura metálica, a forma como pássaros anunciam a madrugada e o cheiro a bolos e a rio que lhe desperta também o apetite. Uma brisa entra por convite. Ele fecha os olhos e sente por um momento que está em São Francisco. Imagina as pessoas, o inglês americanizado, as colinas e os eléctricos. Quando ouve barulho atrás de si, recorda-se de colegas de quarto argentinos, de ratos embutidos em paredes ocas e dela. De ambas. Regressa a Portugal, volta-se e repara na agitação do molde uniforme de massa que se esconde por detrás dos lençóis brancos de cetim. Roupa abandonada ao lado da cama, calças ou camisas ou saias ou roupa interior.

Tens um cigarro?
Não, era o meu último. Porque é que achas que existe este fascínio pelo tabaco depois do sexo?
Uma maneira de nos matarmos um pouco mais?

A mulher está agora descoberta. Nudez, formas, beleza, uma pantera tatuada no ombro, tudo ostensivo para o homem de boxers ao pé da janela.

Consegues dizer que me amas?
Não. Gostavas?
É indiferente. Posso utilizar o telefone? Estou sem bateria no móvel e tenho que ligar à minha filha. Ela está agora a sair para a escola. É o primeiro dia dela, sabes?
Está na sala, junto da televisão.

O homem coloca a camisa e abandona o quarto. A mulher continua deitada na cama. Esconde o corpo por baixo dos lençóis e repousa a cabeça na almofada moldada pelo seus longos cabelos pretos. O silêncio invade o quarto e os ruídos da sala ganham vida.

Como é que estás, nervosa?... Não fiques, vai correr tudo bem…O pai ama-te e quando voltares já vai estar em casa… Beijinhos.

A tristeza inunda-lhe os olhos. Volta, envergonhado, para o quarto. Os homens quando choram sentem que perdem algo de si. Como se derretessem.

És um bom pai e um péssimo marido.
Recuso ambas as acusações.
Sabes, sempre gostei dos teus filmes. Tens... presença.
Tenho que ir.
Volto a ver-te?
Não.

O homem veste-se e sai sem uma palavra. Ainda pensa em voltar mas sente que nunca conseguiria dizer nada sem que um criador obscuro o tivesse escrito primeiro.

DIÁLOGO

Porque é que os actores são sempre tímidos?
Não sei. Porque é que os taxistas não sabem guiar? Ou porque é que as cabeleireiras têm sempre péssimos penteados?
Se eu fosse actriz, ia ser a pessoa mais extrovertida do mundo. Ia espalhar charme e graça. Ia divertir multidões. Ia ter tanta confiança própria que nunca estaria triste ou deprimida.
Ias perder a alma e transformavas-te numa marionete. Os teus sofás seriam capa da Caras, o teu casamento faria parte do álbum de recordações de milhares de Portugueses, serias protagonista de um reality show absurdo onde a tua privacidade serviria de entretenimento para donas de casa e mecânicos. Apenas mais uma cara no museu de cera da celebridade.
Não te sabia tão irónico.
A ironia está morta. Ligas a televisão e vês o líder do mundo livre, enquadrado entre fotografias familiares, em discurso directo para o povo oprimido. Olha-o nos olhos e diz que quer libertá-los. Que os ama. E que daqui a alguns meses, depois de bombardear as suas cidades, matar os seus filhos, invadir o seu país, tudo será melhor. Hoje, agora, a ironia é não ser irónico. A inocência tornou-se sarcasmo.
Para alguém que está nu e com uma semi-erecção, tens valores morais e éticos muito rígidos.
Não existem semi-erecções. Ou se está duro ou flácido. Preto ou branco. Quando fores um pouco mais velha, vais perceber.
Queres ir comer alguma coisa?
Não. Tenho que telefonar à minha filha. Vai ter hoje a sua primeira aula de dança. Comprei-lhe sapatilhas brancas. Passou o dia de ontem a treinar à frente do espelho. Posso usar o teu telefone?
Está no corredor.
Até já.
Vemo-nos mais tarde?
Só se eu não o conseguir evitar.

CLIMAX

Vai tudo correr bem, vais ver... Não dói nada, as vacinas são rápidas e o médico dá-te um rebuçado depois.... O pai adora-te... Sim, hoje vou chegar cedo a casa... Vou comprar gelado e passamos a noite a jogar às charadas... Até logo. Coragem.

Quando o homem regressa ao quarto, a mulher loira de raízes escuras está desperta, olhos bem abertos. Continua deitada na cama, lençol branco bem encaixado entre os braços, e fuma um cigarro. A meia luz do amanhecer entra pela janela entreaberta e toda a divisão torna-se surreal, como num sonho onde não existe dia ou noite, apenas tempo e espaço indefinito.

Gostas muito da tua filha, não gostas?

O homem não responde. Está ocupado a tentar encontrar as calças por debaixo da cama. No intervalo de cada baforada, a mulher faz uma pergunta.

A mãe não se importa que lhe telefones tão cedo?
Que idade é que ela tem?
Tem os olhos da mesma cor do que tu?

O homem senta-se na cama, de costas viradas para ela. Calça os sapatos. Ela levanta-se e abraça-o por trás, revelando as costas nuas, a linha do pescoço, a definição das costelas, a pantera tatuada no ombro.

Tenho que ir. Tenho mesmo que ir.
Eu sei que tens. Duvido até que tenhas estado aqui.
Consegues dizer que me amas?
Posso tentar. Queres?
Não. Tenho que ir.
Gostei muito de te ver outra vez.
Outra vez?

O homem levanta-se. Olha para ela e entende.

Não é assim que faço as coisas. Isto não devia ter acontecido.

Ela deita-se de novo, desta vez com o peito destapado. Acende novo cigarro.

Descansa. Não é por termos fodido duas vezes que te vou obrigar a levares-me a jantar e ao cinema.

O homem pega no casaco—

Não devias...

-- e sai apressado. A mulher levanta-se e caminha, lentamente, até à sala. Junto à televisão, entre uma jarra com flores de plástico e uma agenda telefónica, encontra o telefone no descanso. Apaga o cigarro, olha para a tecla que ordena “redial” e levanta o auscultador. Espera alguns segundos.

Ao sinal seguinte, serão sete horas e vinte e três minutos...

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