quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Crente

Adoro este minuto antes. Sentado no carro, rádio ligado, pistola na mão, o metal já quente da carícia dos meus dedos. Não sou amador, vigio a loja durante algum tempo, dias às vezes, sei bem quando é que os segurança mudam de turno ou vão à tasca da esquina beber uma imperial. Isto não é um impulso, quero que entendam, isto é uma profissão, uma escolha consciente, uma filosofia de vida. Sou indiferente aos vídeos de vigilância ou possíveis testemunhas. Não tenho vergonha de quem sou, orgulho-me do meu poder, sinto-me mais do que Deus com uma arma na mão, sou-lhe superior porque posso matar os Seus filhos com impunidade. Livre arbitro. Escolher tornar-lhe a família um pouco mais pequena. Uma cadeira a menos naquela enorme mesa onde comemoram o Natal. Adoro este minuto antes. Quando os meus dedos sentem as ranhuras como rugas do cano metálico, uma suave e rude carícia. É aqui, agora, que eu sinto o que pode acontecer. Abrir esta porta, colocar ambos os pés ao mesmo tempo fora do carro, apagar um cigarro e inspirar fundo sem nunca saber se a expiração se seguirá. Só se lhe foderes a cabeça até à exaustão é que Deus se vai lembrar do teu nome. Bem vindos ao auto-terrorismo.

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