segunda-feira, janeiro 12, 2004

Domingo

Levantar-me cedo. Preparar o pequeno almoço antes de acordar os miúdos. Cereais, leite, sumo de laranja acabado de espremer, torradas para o João, um pedaço de fruta para mim. O fato escuro de Domingo embrulhado em plástico, todas as nódoas são removíveis na limpeza a seco. Preparar o banho, a antecipação de gritos e risos, o entusiasmo do fim de semana, correrias, demasiada energia. Café. Beijos de bom dia, responder a perguntas, ‘sim, vamos lá. Hoje é Domingo. Não sabes que vamos lá sempre ao Domingo?’ A televisão que se liga, volume demasiado alto, explosões pela manhã. O João sai para comprar tabaco, o jornal e pão quente. As crianças entram na banheira e brincam com o champô, cabelos espetados, água que se espalha, a minha memória diverte-se com a estória de uma mulher nos Estados Unidos que afogou os seis filhos porque já não os conseguia ouvir. Toalhas encharcam-se, pés molhados pela casa, alguém morre no ecrã mas é apenas a brincar. Penteado com o risco ao lado, hoje têm que estar bonitos, os sapatos brilhantes, a camisa bem engomada, dentes lavados. A porta abra-se, ‘estamos atrasados, temos que nos despachar, sabes como detesto chegar tarde.’ Fumo um cigarro escondida na casa de banho enquanto folheio uma revista, sorrisos, sapatos, vestidos de dor, plástico, escadas, sofás, luzes, inteligência artificial que desprezo porque não sou eu. Reparo que os dias agora me parecem sempre cinzentos, talvez o sol tenha perdido a sua cor e ainda ninguém reparou. ‘Vamos’. Sapatos altos, saia escura pelo joelho, a limpeza a seco pode remover todas as nódoas, mas o preto esconde-as e eu não gosto que as minhas manchas desapareçam, prefiro viver com elas, nunca se sabe quando é que vou ter oportunidade para as revelar. ‘Estou pronta’, corre-se pelas escadas, ‘cuidado’, quatro portas de um carro batem simultaneamente, rádio ligado, notícias, mais pessoas que morrem mas é longe, não existe. Trânsito, dificuldade em estacionar, ‘venha, venha, pode ir’, 50 cêntimos entre dedos, ‘sacanas’. Chegámos, estamos aqui. Sofremos a semana toda para chegar. Saúde espiritual. Descanso, sinto que pertenço. As portas abrem-se e invade-me uma luz branca, um ruído silencioso, uma sensação de fé. Rodeada de centenas como eu, irmãos e irmãs, cartão de crédito na mão, a minha única dúvida é por que loja começar. Estou pronta para melhorar o meu crédito existencial. Sou o que compro. O Centro Comercial é o meu templo.

P.S. - Inspirado em 'White Noise', de Don Delillo

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