quarta-feira, outubro 22, 2003

Capítulo III – Carlos e Aníbal

Transcrição do interrogatório a Aníbal Figueiredo, quarenta e oito anos, Bilhete de Identidade número 193293472. Sargento da PSP de Oeiras, distintivo número 393483. Investigação conduzida pelo Detective Carlos Rodrigues, distintivo número 197648 da Polícia Judiciária. Segunda-feira, dia 20 de Outubro 2003. 16h22.

Carlos Rodrigues: Sargento.
Aníbal Figueiredo: Detective. Em que posso ajudá-lo?
C. R.: Estou a investigar os acontecimentos de Sábado, o caso do Hotel Hibis.
A.F.: Ora bem, Diogo Andrade deu entrada na esquadra por volta das nove da noite depois de ser apreendido. Foi colocado na cela, esperando audiência com o Juiz hoje, segunda-feira. Apresentava vários sinais de violência física, olhos inchados, hematomas vários.
C.R.: Eu li o relatório Sargento. O que quero saber, é o que aconteceu depois.
A.F.: Bem, o problema é que a detenção teve lugar neste particular fim de semana, quando a cidade estava em fogo com o jogo...
C.R.: Grande espectáculo.
A.F.: Aquela jogada...
C.R.: Achas que foi penalty?
A.F.: Tenho dúvidas mas sei uma coisa. É altura daquele tripeiro do Couto encostar. Foda-se, aquilo é só porrada. Já não se usa.
C.R.: E o lance do Ronaldo?
A.F.: O puto não passa a bola a ninguém, mas quando atina...
C.R.: O melhor jogo de futebol de sempre.
A.F.: Sabes que mais? Concordo.
C.R.: Orgulho de ser português.
A.F.: (silêncio) Verdade.
C.R.: (silêncio)
A.F.: (silêncio) É de ficar comovido.
C.R.: Raramente chorei na minha vida.
A.F.: (silêncio)
C.R.: Bem, estávamos a falar do quê?
A.F.: (silêncio)
C.R.: Ah, Diogo Andrade.
A.F.: Certo.
C.R.: Continue.
A.F.: Pá, trouxeram o miúdo para aqui no Sábado. Primeiro ficou numa cela sozinho. O problema foi quando começaram os confrontos na cidade. Tivemos que trazer dezenas daqueles hooligans para a esquadra e tínhamos duas soluções. Deixar o miúdo no meio dos carecas ingleses (silêncio) ou metê-lo na mesma cela do João ‘Enraba o Cão’.”
C.R.: (silêncio) João (silêncio) ‘Enraba o Cão’.
A.F.: Certo.
C.R.: Quem é o (silêncio) ‘João Enraba o Cão’?
A.F.: Um pervertido que passa a vida cá na cadeia. O homem tenta comer tudo o que tenha buraco. O apelido vem de um caso de alguns anos atrás, os cães de um bairro em Oeiras de Baixo começaram a ter um comportamento estranho, ladravam muito. Descobrimos que o João (silêncio). Estás a ver.
C.R.: Eheheh, porque é que não tentaram contactar o Juiz?
A.F.: (silêncio) Era Domingo. (silêncio). Dia de jogo. Até o Presidente da República estava inacessível.
C.R.: Não havia uma Juíza mulher que pudessem contactar?
A.F.: Eheh, pensei nisso, mas o problema é que a maior parte dos Centros Comerciais não tem rede. É impossível telefonar para o móvel de alguém ao Domingo.
C.R.: Ehehehehe, verdade, verdade. Mas ao menos mantiveram a cela do puto e do João (silêncio) ‘Enraba o Cão’ vigilada, certo?
A.F.: (silêncio)
C.R.: Certo?
A.F.: (silêncio) Era Domingo, dia do jogo. Compreendes, estou certo? Era o nome do país que estava em causa, foda-se.
C.R.: Deus do Céu! E o puto foi...?
A.F.: Oficialmente? Não. Aqui entre nós? Duvido que o miúdo se consiga sentar nos próximos dias.
C.R.: (silêncio) Isto está a gravar.
A.F.: O quê?
C.R.: A conversa está a ser gravada. Não há oficialmente e aqui entre nós. Está tudo a ser gravado.
A.F.: (silêncio) Não me fodas.
C.R.: Já que falamos nisso, por acaso não sabes como dá para desgravar as conversas?
A.F.: Eu? Nem sei ligar o meu computador, quanto mais. O único instrumento de trabalho que utilizo é aqui a minha companheira (silêncio). Foda-se.
C.R.: O que foi?
A.F.: Onde é que meti aquela merda?
C.R.: O quê?
A.F.: A minha pistola.
C.R.: Como é que perdeste a pistola, foda-se?
A.F.: Espera, deixa-me pensar por onde é que andei hoje. (silêncio) De manhã fui falar sobre dever cívico ao Liceu Secundário Isaltino Morais. (silêncio) Depois fui interrogar um preso na cadeia de Oeiras. Não me digam... Foda-se. Foda-se, foda-se, foda-se. Nem te sei dizer quantas vezes é que esta merda já me aconteceu.
C.R.: Aníbal?
A.F.: O que foi, foda-se?
C.R.: (silêncio) O gravador? Cuidado, meu.
A.F.: Sabes que mais? Que se lixe o gravador. Estou farto. Farto. Tenho quarenta e oito anos, vinte e três na profissão. E estou farto. Nunca quis isto. Eu queria é ser dançarino. Mas não, era pouco 'aceitável'. Onde é que estava o lobby gay nessa altura? Eu tinha planos. Ou pelo menos tinha planos para fazer planos. E isto não tem nada a ver. Deixa-me mostrar-te uns passos. Eu tinha jeito Carlos, acredita. Espera aí.
C.R.: Aníbal, esta não é mesmo a altura...
A.F.: (silêncio) (respiração ofegante)
C.R.: Uau. Tens uma elasticidade admirável para alguém da tua idade.
A.F.: Dancar é a única coisa que me faz feliz. (silêncio). Foda-se. Será que deixei-a na casa de banho?
C.R.: Chama-me o puto. Quero falar com ele. É tempo de acabar com isto.
A.F.: Talvez tenha ficado no carro.
(silêncio) (fim da transcrição)

Faltam dois capítulos para o fim! Será a verdade revelada por fim? Irá Diogo confessar? O que se passou naquele fatídico dia? Não perca a quase conclusão desta cativante estória!!!

“Diogo: Sim, eu sei de onde veio todo aquele sangue. É altura de dizer o que se passou.”

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