terça-feira, setembro 30, 2003

Elia Kazan

Morreu um dos realizadores mais marcantes do século passado, a mão que criou “Há Lodo no Cais”, “Um Eléctrico Chamado Desejo”, “Esplendor na Relva”, um contador de estórias de excepção. O lamento devia ser unânime mas há aqueles que se recusam a chorar. O Sr. Kazan foi um dos principais colaboradores da Comissão McCarthy na década de 50, apontou o dedo a dezenas de colegas e chamou-lhes comunistas. Ajudou a destruir dezenas de carreiras e a criar a lista negra. Kazan - esqueçam o senhor, nunca o foi - era um filho da puta, um cobarde que preferiu colaborar com um sistema que assassinava a liberdade humana. Na morte, todos os elogios fúnebres servem como um acto de relações públicas, a hipocrisia final, disfarçam-se sem jeito as manchas do passado, esquece-se a única questão relevante: É possível separar o homem da sua arte?

Roman Polanski drogou uma adolescente de treze anos e sodomizou-a. Está refugiado em França, se colocar um pé nos Estados Unidos será preso e julgado por violação. É também o autor de “Chinatown” ou “Rosemary’s Baby”. Com “O Pianista”, foi galardoado com o Óscar de melhor realizador. Suprema ironia, um país como os Estados Unidos dar um prémio a um foragido da justiça. A mim não me incomodou, pela mesma razão que consigo rever os filmes de Elia Kazan, apreciar subtilezas e génio, a direcção de actores brilhante, a projecção do próprio realizador na personagem de Marlon Brando em "Há Lodo no Cais", a justificação da denúncia. Condeno a vida privada mas isso não me impede de apreciar o seu trabalho, apenas me torno mais crítico e atento ao que vejo. Confesso, preferia não gostar de “Há Lodo no Cais” ou de “Chinatown”. Não consigo. Aos meus olhos, a arte separa-se do homem.

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