quinta-feira, janeiro 15, 2004

Não era engraçado se o amor existisse?

O telefone nunca toca quando olhamos para ele. Se a nossa atenção não se desviar do relógio, os ponteiros congelam. Existe quem use os seus pecados como um vestido de Domingo, convencidos que o sol ofusca todos os defeitos. Quando vistas em pormenor, todas as coisas perdem o sentido. A realidade é um ponto de vista, o amor menos que uma ilusão, apenas um truque de magia barato. Os homens vestidos em fatos azuis escuros já não enganam ninguém, estão esgotados de humanidade. Ninguém tem tantos amigos que precise de dois telemóveis.

Antes, uma noite, Filipa levantou-se e caminhou até à sala. Passava das quatro da manhã e o silêncio entupia-lhe os ouvidos. Abriu a porta da rua o máximo que conseguia, até a frecha encaixar no tapete, pegou na televisão e desceu as escadas. Saiu do prédio, virou à direita e caminhou mais de 100 metros até encontrar um sem abrigo que dormia encostado a uma janela espelhada da Caixa Geral de Depósitos. Devagar, naquele silêncio que tanto a incomodava, colocou o aparelho ao lado do estranho homem por quem passava todos os dias. Filipa apertou o roupão quando confrontada pelo vento, olhou para ambos os lados e voltou para casa. Se alguém a tivesse visto, saberia que nunca esteve tão bonita. Existiu algo de inexplicável no movimento absurdo e anárquico dos seus cabelos negros, a revolta tornou-a mais mulher.

Quando as crianças fugiam da escola, no intervalo para o almoço, e olhavam para a quinta janela do lado direito a contar de baixo, encontravam-na sempre. Filipa agora via o mundo como o seu ‘reality show’ pessoal, aprendeu a reconhecer as pessoas que passavam numa indiferença fingida ao seu olhar. A mulher do saco de plástico verde, o encarregado de limpeza que varria a rua num gesto mecânico e inútil, como se não tivesse alma. Por muito que chova, a sujidade permanece, a água depressa se converte e transforma em lama. Os jogos de futebol no campo de cimento, a procura do cansaço como se fosse uma forma de absolvição. Havia também o casal de namorados, beijos à porta da escola, dedos entrelaçados, a angústia da separação, mesmo que tenha apenas a duração de uma aula de matemática. Todos temos as nossas personagens preferidas, e estes encantavam Filipa. Observava-os e puxava do seu único cigarro do dia. Acendia a chama do isqueiro, inspirava fundo, preparada para encher os pulmões de alcatrão, e pensava.

Não era engraçado se o amor existisse?

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