terça-feira, janeiro 13, 2004

Levanta-te e chora O

Uma crítica em forma de homenagem à comédia portuguesa.

Olá, boa tarde. Antes de começar, quero agradecer-lhes a vossa presença. Tenho imenso gosto em estar neste blog, perante vocês, as quatro pessoas que o visitam com regularidade. Não sei bem como é que vieram cá parar, cá por mim confundiram a terrível verdade com a temível vagina, um ‘site’ porno que até acho muito interessante e educativo, tem uma secção dedicada ao ‘fistfucking’ que deveria aparecer tanto em compêndios médicos como no Guiness Book of Records. E por falar em práticas sexuais duvidosas, estava eu em casa ontem à noite quando liguei a televisão. Agora perguntam vocês, mas ò Tiago, porque é que foste ligar a televisão numa segunda feira quando toda a gente sabe que não dá nada de jeito? Ou tens o descodificador dos canais porno? Não, não tenho, o meu pai só assinou a Sport TV e, confesso, estou farto de bater punhetas enquanto assisto aos golos do Sporting. Decidi então ver o Levanta-te e Ri, um programa de comédia da SIC na tradição gloriosa de clássicos como os ‘Malucos do Riso’ ou, quem é que se poderá alguma vez esquecer, ‘O Clube dos Campeões’. Descobri que existem dois tipos de ‘Stand Up Comics’; os que se esforçam e os muito maus. Estes últimos são os mais irritantes, adoptam um sotaque idiota para contarem anedotas mais antigas do que a última vez que o Benfica foi campeão, filhos da velha e medíocre revista portuguesa. (Sinceramente, não me interessa o que querem fazer do Parque Mayer, desde que todos os Diogos Morgados e aquela bola com olhos que apresenta o Preço Certo sejam detidos e enviados para a Madeira. Porquê a Madeira, perguntam? Porque acho que devíamos fazer da ilha o Alcatraz Português, exilar todos os maus actores, jogadores de futebol e o Herman José. Pensem bem, já lá está o Alberto João Jardim. Querem melhor começo?). Mas onde é que eu ia? Ah, ok. Os muito maus não têm um traço de originalidade, são fotocópias um dos outros apesar de alguns serem gordos, outros usarem óculos e os mais arrojados deixarem crescer a barba. A sua imagem de marca é o ‘punchline’ sempre acompanhado com uma careta, ao melhor estilo cómico mexicano. Só falta a frase ‘Ai a minha vida!’ e levar as duas mãos à cara ao mesmo tempo que sustêm a respiração e as bochechas incham. Um clássico! Os que se esforçam são melhores, vê-se que tentam ter material novo, aquele estilo Seinfeld de utilizar coisas do dia-a-dia, a desconstrução do ridículo da realidade actual. O que falta é confiança. Mas deixem-me voltar atrás. Há muitos anos, antes de a minha avó se tornar senil e começar a acreditar que Portugal era um país com potencialidades, ela chamou-me para perto da lareira, olhou para mim e disse; ‘Tiago, meu netinho, quero que saibas uma coisa. Há uma fortuna a ser feita em anedotas de peidos, piças e palavrões. Lembra-te disso. São os três P’s da comédia portuguesa’. Pois bem, ela tinha razão. O problema é que o segredo foi divulgado, tornou-se senso comum e todos sabem que, para fazer a audiência, qualquer audiência em Portugal, sorrir, basta dizer ‘peidei-me’ ou ‘vai levar no cú’. E é a esse truque fácil, à piada escatológica importada do pior humor americano que estes ‘comediantes’ tanto parecem admirar, que a maioria - sejam os que se esforçam ou os muito maus – recorre. Mas se para os últimos é apenas natural, não sabem ou não querem mais, para os primeiros é cobardia e falta de convicção no tipo de humor que lhes interessa. E se é das influências dos Estados Unidos de que falamos, recomendo a todos aqueles interessados em comédia inteligente a verem um episódio que seja do ‘Daily Show’, com o Jon Stewart, a estudarem os segmentos com o Rob Corddry ou o Stephen Colbert. O programa é transmitido na SIC Radical, casa da contra-cultura ‘mainstream’ portuguesa. Para os que preferem o humor britânico pós-Monty Phyton, prestem atenção ao ‘The Office’. Agora perguntem-me, mas ò Tiago, não achas que estás querer demais? Por amor de Deus, olha para as nossas telenovelas! Olha para a lista da FNAC dos livros mais vendidos! Talvez tenham razão, mas como a minha avó me dizia, ‘Que tenhas sempre como referência o inatingível. Como o Fininho.’ E ele raramente se peidava. Obrigado e voltem sempre. Vou estar aqui toda a semana.

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