terça-feira, abril 20, 2004

Shattered Glass

Não é um filme sobre jornalistas. É uma revelação sobre os perigos do deslumbramento, a inexistência de limites quando o objectivo último é a celebridade e a adoração. Sthephen Glass, um miúdo de 25 anos que escrevia para o The New Republic e colaborava com a Rolling Stone e a falecida George, não inventou mais de quarenta artigos porque era preguiçoso. O seu objectivo não era evitar entrevistas monótonas, dezenas de horas ao telefone na esperança que alguém atenda do outro lado, prazos irreais e longas noites com os olhos feridos pela florescência do monitor. Não. Glass enganou a sua revista, os colegas e os leitores porque queria ser o centro das atenções. Aquele que todos procuram nas festas. O menino bonito. Mesmo quando confrontado com as mentiras, a sua atitude continuou infantil, negar, sempre, até ao limite, até chegar ao ponto onde o silêncio é a única resposta. Porque apenas os Homens são capazes de reconhecer os próprios erros em voz alta. Apesar de eu ser jornalista, uma profissão a que não identifico honra ou mérito, tudo o que senti por Glass foi pena. Não o consegui desprezar. Este mentiroso patológico, agora um romancista a viver em Nova Iorque, terra fantástica onde até os freaks e criminosos estão em casa, é um sinal dos tempos. Neste mundo, apenas interessa o nome no jornal, a cara na capa, a identidade como legenda. E, escreveu James Jones, “there's not some other world out there where everything's gonna be okay. There's just this one, just this rock.” Não sinto pena por Glass ter sido apanhado, pelo contrário. Apenas lamento que, nesta pedra onde vivemos, a dignidade profissional e pessoal seja tantas vezes trocada pela aparência das luzes.
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