quarta-feira, maio 26, 2004

The Eternal Darkness of the Spotless Mind

Coisas que me irritam: Herman José, Fernando Mendes, condutores que buzinam em filas de trânsito ou semáforos, empregados de café antipáticos, querer ouvir uma música e o CD estar riscado, não me devolverem os telefonemas, acordar ressacado e não ter 7up em casa, as luzes que iluminam a Basílica da Estrela apagarem-se à meia noite. E críticos de cinema.

Existem dois tipos óbvios de críticos de cinema.

Temos a nova geração, representada pelos tipos que aparecem na Sic Radical, a contra-cultura mainstream, caras diferentes e opiniões sempre iguais. Vamos chamar-lhes os protagonistas, porque são as luzes e aquela bolinha vermelha que acende quando uma camera está ligada que eles procuram. "Eu gostei muito deste filme." "Eu também." "Sabias que (inserir trivialidade cujo único objectivo é demonstrar quão cool, esperto e conhecedor sou)?" "Pois, e não te esqueças que (inserir complemento ao facto anterior, deixar claro que também eu sou cool, esperto e conhecedor)." Tudo isto é muito giro e simpático durante cerca de trinta segundos. Depois, é como ver uma obra sem plot nem conflito, onde todas as palavras são previsíveis e as personagens desinteressantes.

Os antagonistas são a velha geração, nomes num quadro e estrelas que classificam filmes como se estes fossem alunos numa escola primária. Escrevem para eles próprios sem terem a mínima preocupação com aquilo que o público/leitor procura, cada texto uma oportunidade para revelarem a bagagem cinematográfica oferecida pelos anos. Comparam "Lost in Translation" com "Um Americano em Paris" e fazem vénias fáceis a filmes intransponíveis. A ausência de espinha dorsal pode ser uma qualidade profissional. Existe uma racionalização constante e uma frieza que me faz questionar se estes homens gostam de cinema.

"Eternal Sunshine of the Spotless Mind" é um filme sobre relações que nunca irão resultar e pessoas opostas que insistem em abraçar-se porque um momento de carinho é também um minuto de felicidade. O guião de Charlie Kaufman é precioso, humano e invulgar(só em Portugal é que não se reconhece que o escritor é uma voz única no cinema americano, mais, é o primeiro guionista a assumir a condição de 'estrela' sem nunca se sentar na cadeira de realizador), as interpretações equilibradas, a direcção de Michael Gondry adquada e inovadora. Este é um dos filmes mais comoventes e menos sentimentais do ano. A relação entre Jim Carrey e Kate Winslet é tão comum que não há ninguém (excluindo os críticos de cinema, claro) que não se identifique com ela. Todos sofremos e, por vezes, o esquecimento parece ser a melhor solução. Mas isso seria ignorar quem fomos e em quem é que nos tornámos. E, como estava escrito numa caneca que ofereci a uma ex-namorada, "when we look back, we don't remember days, we remember moments". Para a maioria dos críticos portugueses, nada disto importa. "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" foi tratado como outra qualquer comédia romântica. Na minha opinião, e este texto é apenas e só a minha opinião, talvez lhes falte emoção. Melhor ainda, talvez lhes falte tesão. Ou, como disse um amigo, talvez lhes falte simplesmente vida.

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