quinta-feira, dezembro 15, 2005

Plano de um assassinato
© por Tiago R. Santos Todos os direitos reservados

INT. ESCRITÓRIO – LISBOA – TARDE

FILIPE, trinta e poucos anos com bom aspecto, está a tirar fotocópias. O seu olhar vai para alguém fora de cena. Filipe sorri, um movimento de lábios sacana, num jogo de ‘flirt'.
Páginas vão aparecendo no tabuleiro.
HUMBERTO, mais novo mas com algum excesso de peso, aproxima-se. Está a suar e olha para ambos os lados. Ambos estão vestidos com calças de fato, camisa e gravata.

HUMBERTO
Estou farto, meu.

Com muita calma, Filipe olha para o colega.

FILIPE
Estás farto do quê?

Humberto volta a olhar para os lados. Depois, tira uma pequena pistola no bolso e mostra-a a Filipe, que olha para ela, quase indiferente. Humberto volta a colocá-la no bolso, sempre a ver quem é que está à sua volta.

HUMBERTO
Vou matar o Gordo. Estou farto, porra.

A máquina continua a cuspir páginas.

FILIPE
Onde é que arranjaste isso?

HUMBERTO
Era do meu pai. Esteve na Guerra.

FILIPE
(volta ao seu jogo de flirt, sorri, não olha para Humberto)
Alguma vez disparaste uma coisa dessas?

Um segundo de silêncio.

HUMBERTO
Já.

Filipe olha para ele, sério.

HUMBERTO (CONT.)
Mais ou menos.

Filipe continua a olhar para ele.

HUMBERTO (CONT.)
Na Feira Popular, com uma espingarda de chumbo. Ganhei um urso de peluche azul.

Filipe olha para alguém que passa no seu lado esquerdo e acena-lhe com a cabeça.

FILIPE
Há uma maneira melhor de fazer a coisa.

HUMBERTO
Qual?

FILIPE
Convida-o para beber um copo.

HUMBERTO
Estou a falar a sério, caraças.

FILIPE
Eu sei.

Humberto olha para os lados.

HUMBERTO
(em voz baixa)
Veneno?

FILIPE
(abana a cabeça)
O que tens que fazer é convidar o gajo para beber um copo e pagar umas quantas rodadas. Torna-te amigo dele, ri-te das piadas, elogia-o. Diz-lhe que está mais magro. Tudo isto enquanto o embebedas.

HUMBERTO
(confuso)
E depois? Quanto sairmos do bar, dou-lhe uma pancada na cabeça. Vai parecer um assalto. É isso?

FILIPE
Nã, nã, nã. Não fazes mais nada. Deixas apenas que o gajo vá a guiar para casa. Ele nunca larga o novo BMW. E é assim que matamos pessoas em Portugal. Embebedamo-las e metemo-las ao volante. Fácil e limpinho. Claro que pode demorar tempo até o gajo se espetar. Podes ter que repetir o ritual durante meses, anos, tornar-te o melhor amigo dele, o padrinho dos putos do Gordo, talvez até férias conjuntas na República Dominicana. Mas sabes o que é que dizem sobre a paciência?

HUMBERTO
Sei, claro.

Filipe olha para Humberto, com um ar inquisidor.

HUMBERTO (CONT.)
Tu não estás bem, pá.

FILIPE
(olhar fixo)
Não sou eu que tenho a arma do meu papá no bolso do fato.

Humberto, envergonhado, volta para o seu lugar e deixa a cena.

O barulho da máquina pára. Filipe pega nas páginas que se encontram nos diferentes tabuleiros. Coloca-as numa pilha. Nessa altura, outra pessoa passa, agora pelo seu lado direito.

VOZ OFF
Copos logo à noite?

FILIPE
(sorri)
Claro, amigão. Levas tu o carro?


FIM

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olá Tiago. vou começar por tentar fazer com que te lembres de mim. Ou melhor, primeiro vou certificar-me de que és mesmo o Tiago com quem quero comunicar: és o Tiago, argumentista que viveu em NY, certo? Ok. Eu sou o Renato. conhecemo-nos no Pão, tivemos uma discussão acalorada sobre cinema, o que ainda me resta dessa conversa, foi o brilhante futuro que previste para o Philip Seymour-Hoffman... quando vi o Capote, lembrei-me de ti. Bom vamos ao que interessa: Primeiro, deixa-me dar-te os parabens pelo argumento de Call Girl. Agora o desafio: Se bem te lembras, eu sou actor, e acontece que em Setembro vai nascer um projecto meu com o apoio da Camara Municipal de Cascais, que se chama Projecto Novos Actores. É um projecto de Teatro (se quiseres ter uma ideia do que é vai a projectonovosactores.blogspot.com). Desafio: Lança-te na aventura de escreveres para Teatro e faz-me uma peça para Jovens! Consulta o blog e diz-me qualquer coisa! Abraço.
Renato

junho 11, 2008  

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